[WEB] The Web is Dead. Long Live the Internet

Segue abaixo a minha resenha para o artigo “The Web is Dead. Long live the Internet” publicado pela revista Wired em agosto do ano passado, de autoria do meu novo guru de internet, Chris Anderson e de Michael Wolff. O texto (em inglês) traz implicações interessantes sobre o futuro da internet e vale a pena ser lido. Muito embora seja fruto de um trabalho acadêmico, coloquei algumas opiniões e exemplos que extrapolam o conteúdo do texto, então acho que cabe colocar aqui.

Afirmar que passamos o dia inteiro conectados e que a internet é um dos recursos mais utilizados no mundo de hoje não é um exagero. Nunca utilizamos tanto a internet, seja pra ver vídeos no YouTube, jogar online na Xbox Live ou então acessar inúmeros apps em nossos smartphones. Passamos o dia inteiro na internet, mas muito pouco dele na web, em sites tradicionais (no browser em si).

Isso está acontecendo porque os consumidores estão escolhendo plataformas mais simples que adequam-se melhor à seus estilos de vida. A estrutura aberta está dando lugar a um sistema semi-fechado, no qual o controle das informações não fica restrito à poucas empresas (Google, Microsoft), mas a milhões de fornecedoras de conteúdo no mundo, como a Rovio, por exemplo, produtora do popular (e simples!) jogo Angry Birds.

A hegemonia do atual modelo está com seus dias contados. Dentro de 5 anos o número de usuários de internet móvel deve superar o número de acessos por um PC. Isso significa cada vez mais gente consumindo apps e cada vez menos utilizando o browser, afinal um app está a só um toque de distância, enquanto que na tradicional web você precisa digitar, procurar e só então consumir. Não é por menos que o utilizamos num browser responde por menos de um quarto do tráfico da dados da Internet – e está diminuindo.

A internet segue o rumo de outras indústrias, o caminho natural da industrialização: invenção, propagação, adoção e controle. Outro ponto a ser considerado é que, mesmo que gostemos de consumir conteúdo de graça, numa determinada circunstância, como o fim de um dia de trabalho, tendemos a ir pelo caminho mais fácil, ou seja, acabamos pagando por conveniência e confiabilidade, mesmo quando o produto comprado esteja de alguma forma de graça pela internet.

Na Internet em si, aceitamos (ou pelo menos nos fizeram aceitar) uma condição de que necessitávamos de um serviço suficientemente bom, grátis, ao invés de o mesmo serviço com uma Qualidade de Serviço superior, pago. Mas essa lógica está mudando; quando analisa-se os aplicativos, nota-se que as pessoas estão optando pela qualidade de serviço – e pagando por isso. Há inúmeros de aplicativos que foram criados para otimizar a experiência criada na Web (Era PC) para um outro dispositivo, móvel geralmente, que funciona melhor do que o original, mesmo que seja em um tablet ou smartphone, ao contrário dos desktops ou notebooks de “antigamente”.

A comunicação entre um app e uma API reflete bem a importância que o controle dos dados possui. Cada API vem com termos de uso e qualquer companhia pode fazer uso como desejar. Quando analisa-se sob esse ponto, nota-se a importância que a integração de um sistema operacional com uma rede social, que para nós consumidores é visto como “só” mais uma novidade legal, gera grandes reflexos para as companhias envolvidas. Utilize-se, por exemplo, a integração nativa do iOS 5 com o Twitter e, por consequência, os bilhões de tweets enviados por esses dispositivos e o quanto de dados são fornecidos para essas empresas. São elas que possuem o controle e podem utilizá-los da maneira que quiserem. Um simples acordo pode mudar a dinâmica da internet e criar uma vantagem competitiva para uma empresa em detrimento de outra. Se, ao invés do Twitter, a integração tivesse ocorrido com o Facebook, o cenário já seria outro, criando novas implicações na internet como um todo.

Estamos migrando do free – conteúdo grátis provido pelas propagandas – para o freemium – “amostras grátis” para um conteúdo pago, dando ênfase na qualidade do serviço e não no seu preço. A web, entretanto, ainda não desistiu da batalha. Sua esperança está no HTML5, que tem a capacidade de proporcionar uma experiência semelhante à um app num browser. Quando se analisa o Google Chrome e sua Chrome Web Store, esse ponto fica claro – a web está mudando, assim como a internet já mudou. Estamos abandonando o modelo tradicional de procurar para o novo modelo simples de obter. E estamos gostando.

A lógica da internet passa por transformações no campo dos investimentos milionários. Ao contrário de investir em um portfólio diversificado e amplo, esperando que apenas alguns dessem retorno, um investidor russo chamado Yuri Milner resolveu apostar num investimento maciço em um único site: hoje ele detém 10% do Facebook. Nota-se que hoje poucos websites controlam a maioria dos pageviews nos Estados Unidos. No ano de 2010, os 10 principais websites correspondiam a 75% dos pageviews. Ou seja, poucos indivíduos de sucesso controlando milhões de pessoas.

Talvez a mudança mais significativa da internet é que não é mais necessário ser uma gigante com recursos absurdos para atingir uma enorme quantidade de pessoas: olhe os jogos simples que as pessoas jogam nos seus iPhones ou então outros apps de grande sucesso. Essa nova internet derrubou barreiras e facilitou a entrada de agentes desconhecidos no mercado – quem imaginaria que uma das empresas mais conhecidas da Finlândia fosse a Rovio e não a Nokia? E esses desconhecidos possuem poder e mudam as estratégias das empresas. Afinal, porque motivos a Nokia iria abandonar seu sistema operacional próprio, que detém controle total, para uma parceria com a Microsoft e seu Windows Phone 7? Quando compram um smartphone hoje, as pessoas não estão só interessadas no hardware em si, mas em todo um ecossistema em volta do aparelho – e esse ecossistema é formado, principalmente, por apps, como o Angry Birds, da Rovio.

O maior exemplo de website na era pós web é o Facebook, um gigantesco site em que milhões de pessoas gastam seu tempo todo dia, ao invés de ficar pulando de site em site. Além disso, o Facebook fez uso duma estratégia de atrair desenvolvedores para criar aplicativos (sempre eles!) que só poderiam ser acessados dentro do site. O modelo foi e é um sucesso e milhões de pessoas trocam informações todos os dias. Os dados, é claro, são de propriedade do Facebook, ou seja, o Google não tem acesso à eles. Esse é, possivelmente, o principal motivo para o Google adotar uma nova estratégia com a criação do Google+ e a consequente integração dos seus serviços com a nova rede social: atrair membros e conseguir trabalhar esses dados que estão restritos ao império construído por Mark Zuckerberg.

Outro ramo que a internet está mudando é a propaganda. Cada vez mais pessoas passam tempo na internet e as empresas querem atingir esse consumidor. Mas a dinâmica é outra: você não precisa pagar caro para tentar atingir uma pessoa que pode não ver seus anúncios, você paga pelo que consegue. O modelo atual, entretanto, está longe do ideal. Poucas pessoas acabam clicando nos banners de propaganda e você precisaria de milhões de cliques para fazer dinheiro – o que o Google e basicamente mais ninguém foi capaz de fazer.

Ao contrário dos outros meios, em que empresas de publicidade conseguiam criar campanhas para atingir milhares de pessoas, essa lógica não funcionou na internet. Após análise, assumiu-se que o modelo não daria dinheiro. E então começaram a buscar um novo modelo. Do lado da mídia não existia ninguém que soubesse de tecnologia, e o inverso era verdadeiro. Não existia um modelo que integrasse conteúdo, sistemas, experiências e funcionalidade. Isso mudou com o iPad, criando um sistema em que audiência, produtor e marqueteiro trabalham junto.

O sucesso da Apple está em prover, além de seus dispositivos (iPhone, iPad), conteúdo para alimentá-los. Com a iTunes, passou fornecer músicas dum jeito que as gravadoras nunca conseguiram. Além disso, com a App Store, vende aplicativos para serem utilizados por esses aparelhos, gerando bilhões de dólares em receita. A Apple ainda tem total controle sobre os aplicativos de terceiros, como eles devem parecer e quais as experiências que eles devem proporcionar. Não é à toa que as demais gigantes da internet, como a Microsoft e o Google, estão indo por esse caminho. O que empresas como Apple e Facebook conseguiram foi colocar o conteúdo em primeiro lugar – e não a tecnologia em si. Esse modelo é muito mais assimilado pelas pessoas e, dessa forma, de mais fácil adoção.

Podemos afirmar que estamos vivenciando a consolidação de um novo paradigma na indústria da internet – estamos colocando o conteúdo em primeiro lugar, e isso tem influência direta sobre várias indústrias tradicionais do mercado pré-internet, como as agências de publicidade, por exemplo. Se, no passado, atingir um consumidor com um banner era uma tarefa difícil, hoje a mesma empresa pode atingir ao mesmo consumidor com o desenvolvimento de um app interessante, por exemplo. O banner é uma ferramenta publicitária intrusiva, muitas vezes causando repúdio à marca ao invés de promove-la. Um app, por outro lado, com conteúdo interessante e que seja agradável de utilizar tem muito mais chance de sucesso.

A internet segue o ciclo das revoluções industriais: invenção, propagação, adoção e controle. No começo da internet a Microsoft detinha o controle da maioria do uso da web com seu Internet Explorer (que passou a ser utilizado por menos de 50% da população mundial apenas nessa semana). O controle passou depois para o Google, com seus mecanismos de buscas que movimentam bilhões de dólares. Hoje vivenciamos a ascensão da Apple, que fornece conteúdo na era pós-web que ela praticamente criou. Assim como em mercados tradicionais, como petróleo e telefonia, na internet o controle também é importante. A diferença é que o controle passa mais rapidamente de uma empresa para outra. A grande questão quando uma nova potência surge (ou ressurge, como a Apple) não é só o que ela vai fazer com seus novos recursos, mas também qual vai ser a empresa a superá-la.

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